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O futuro do capitalismo verde

domingo, março 07, 2021



Se você ainda pensa que ética e lucro não combinam, pense de novo. Há várias décadas, em um movimento que começou nos países desenvolvidos e se espalhou pelas demais economias, os consumidores tornaram-se cada vez mais preocupados com a sustentabilidade dos produtos e serviços que escolhem. Demorou um pouco, mas essa preocupação passou a incluir também as finanças e os investimentos. Atualmente, a sigla ESG, acrônimo para os termos em inglês Environmental, Social and Governance, vem ganhando importância entre banqueiros e gestores de recursos. Pressionados por clientes, autoridades e reguladores, eles vêm discutindo maneiras de conciliar o lucro com propósitos éticos e não necessariamente econômicos.

Os temas são vastos e variados. Pode ser a preservação do meio ambiente, a proteção aos acionistas minoritários, a erradicação da pobreza, do trabalho infantil ou a compensação de condições insustentáveis ao longo da cadeia produtiva. Ao longo do último ano, os desafios trazidos pela pandemia colocaram o ESG em um novo patamar de importância. “Os investimentos que seguem princípios ESG estão crescendo em todo o mundo e não só os pequenos investidores como também os gestores de recursos estão mais atentos a isso”, disse o presidente do Global Impact Investing Network (Giin), Amit Bouri.

O Giin é uma organização não governamental com sede nos Estados Unidos que procura estimular os investimentos de impacto. Ou seja, aqueles que buscam gerar, além de lucros, retornos positivos e mensuráveis em termos sociais e ambientais. Segundo Bouri, nos últimos meses quem administra grandes quantidades de dinheiro está mais permeável a esses conceitos. Por exemplo, os gestores de family offices. “Cada vez mais famílias estão querendo aplicar esses princípios na administração de seu patrimônio, de modo a deixar um legado para as gerações futuras”, disse. Essa atenção aos princípios da sustentabilidade foi provocada por uma tomada de consciência de que os riscos mudaram, especialmente após a Covid-19. “As pessoas estão se perguntando em que mundo elas querem viver após essa crise passar”, disse Bouri.

Além da pandemia, os sucessivos e cada vez mais graves eventos climáticos colocaram o meio-ambiente no topo da agenda. “Sustentabilidade deixou de ser uma palavra bonita e passou a ser uma necessidade”, disse a principal executiva da Principle for Responsible Investment (PRI), Fiona Reynolds. Com sede em Londres, o PRI é uma rede de investidores que busca adotar princípios ESG na gestão de seus recursos e que conta com o apoio da Organização das Nações Unidas (ONU). “Deixou de ser algo que seria bom seguir para algo que é essencial seguir.”

“Os pequenos investidores e os gestores de recursos estão mais atentos aos princípios ESG” Amit Bouri, CEO do Global Impact Investing Network.


Acordo de Paris

Mais e mais investidores estão dispostos a prestar atenção a riscos que não consideravam antes. Como por exemplo o impacto da devastação da floresta amazônica, ou as práticas de corrupção dos governos. Segundo Reynolds, um dos grandes catalisadores desse movimento foi o Acordo de Paris, assinado em 2005. Ao alinhar metas globais de redução da pegada de carbono e da devastação florestal, o Acordo chamou a atenção de governos e investidores. “Houve um retrocesso durante o governo de Donald Trump, mas agora, na gestão de Joseph Biden, é bastante provável que os Estados Unidos retomem a dianteira nesses assuntos”, disse ela. Para a executiva, mesmo países sem uma tradição de preservação ambiental estão mais atentos ao assunto. E o mais animador é que o movimento não se limita às nações ricas, que estabeleceram metas ambiciosas de redução das emissões de carbono, mas também foi abraçado por países ainda em desenvolvimento. O melhor exemplo é a China, que se comprometeu a zerar as emissões de carbono até 2060. Pode parecer muito tempo, mas nesse assunto os processos e os resultados são de longo prazo.

E esse movimento só tende a crescer devido à mudança de gerações. Nos próximos anos, a geração dos “baby boomers”, nascidos nos anos 1950, vão dar lugar aos “millenials”, muito mais sensíveis às causas sustentáveis. “Haverá cada vez menos espaço para os gestores de recursos que não colocarem preocupações ESG em suas estratégias de gestão”, afirmou Reynolds. “Até porque a percepção será de que investimentos não sustentáveis vão tornar-se muito mais arriscados.” Bouri e Reynolds foram convidados do ESG Expert, evento sobre investimentos sustentáveis promovido pela XP Investimentos entre os dias 2 e 5 de março.

Fonte: Isto é Dinheiro

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