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O que é economia verde e por que ela é defendida para o Brasil

quinta-feira, agosto 20, 2020

Proposições de economia verde para sair da crise - ((o))eco

Um estudo diz que a adoção do chamado modelo de economia verde durante a recuperação da crise causada pela pandemia do novo coronavírus pode adicionar R$ 2,8 trilhões ao PIB brasileiro e gerar 2 milhões de empregos em uma década, além de tornar o país mais resiliente às mudanças climáticas.

A pesquisa, lançada na quinta-feira (13), é do instituto de pesquisa WRI Brasil em parceria com pesquisadores de instituições como a UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro) e o Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). O trabalho faz parte da New Climate Economy, iniciativa que busca soluções para o aquecimento global.

O trabalho considera a perspectiva de crescimento com base em um cenário em que o Brasil adote um modelo econômico envolvendo medidas de baixo carbono (ou seja, com menos emissões de poluentes que causam a crise climática), redução da perda e desperdício de alimentos, mais produtividade agrícola e queda do desmatamento.

A publicação acontece em um contexto em que crescem as pressões para que o Brasil assuma mais compromissos com o meio ambiente, com a alta do desmatamento na Amazônia desde 2019, a vinculação de crimes ambientais ao agronegócio e a descontinuação de políticas de meio ambiente do governo federal.

Em julho, ex-ministros da Fazenda assinaram uma carta pedindo que o governo federal invista em uma recuperação “verde” para sair da crise econômica causada pela crise de saúde. Em agosto, representantes de grandes bancos brasileiros disseram que não devem mais financiar empresas de carne ligadas ao desmatamento.

Manifestações por um modelo de economia verde no Brasil e no exterior vêm aumentando à medida que cresce a percepção dos riscos ambientais, sociais e financeiros ligados a problemas como a mudança do clima e a perda de biodiversidade. Sem medidas para deter seus efeitos negativos, o futuro deve ser marcado pela escassez de recursos naturais e o aumento de eventos climáticos extremos.

O que é economia verde

A economia verde é definida pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, principal organismo da ONU sobre o tema, como “uma economia que resulta em melhoria do bem-estar da humanidade e igualdade social, ao mesmo tempo que reduz os riscos ambientais e a escassez ecológica”.

A fórmula para esse tipo de economia é baseada em três pilares: baixa emissão de carbono (principal causa da mudança climática), eficiência no uso de recursos naturais e busca pela inclusão social, com ofertas de empregos, adoção de novos padrões de consumo, uso de energia e tecnologias limpas, e proteção da biodiversidade.

A expressão foi citada pela primeira vez no Relatório Brundtland, que em 1987 concebeu a noção de desenvolvimento sustentável. Acabou popularizada na ECO-92, conferência da ONU realizada no Rio de Janeiro em 1992 para discutir a agenda ambiental global, num contexto de aumento da percepção dos riscos ambientais associados ao modelo de crescimento em vigor.

A pesquisa do WRI Brasil usa um conceito similar: o de crescimento verde, que “significa fomentar o crescimento e o desenvolvimento econômico, assegurando simultaneamente que as riquezas naturais continuem a fornecer os recursos e os serviços ambientais”, segundo definição da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico).

A OCDE defende que os países devem adotar políticas que permitam que o crescimento e a preservação ambiental se reforcem mutuamente, seja investindo na adoção de novas tecnologias para a área, incentivando o uso eficaz dos recursos (até que poluir fique mais caro para as empresas), seja criando impostos ligados ao ambiente.

Para a organização, o crescimento verde deve ser mais produtivo e inovador que o modelo de desenvolvimento que existe hoje. Ele deve também criar empregos nas atividades ligadas à economia verde. A OCDE diz que os trabalhadores cujos empregos fiquem em risco no novo modelo podem ser realocados para os setores em ascensão.

Autor do livro “Muito além da economia verde”, o professor e economista Ricardo Abramovay, que trabalha no Instituto de Energia e Ambiente da USP, defende que a nova economia, mais do que representar um “crescimento verde”, deve adotar uma reorganização radical, rompendo com a ideia de crescimento como é visto hoje.

Abramovay diz que o crescimento que leva ao aumento da riqueza material não é compatível com a preservação ambiental nem é a fórmula para o bem-estar humano.

Os instrumentos da economia verde

MITIGAÇÃO

É o nome dado às medidas que reduzem as emissões de gases do efeito estufa ligadas às atividades econômicas. São exemplos dessas medidas o uso de fontes renováveis de energia e de meios de transporte elétricos. É possível também compensar as emissões com ações como o reflorestamento, que sequestra carbono da atmosfera.

BIOECONOMIA

É o nome dado ao conjunto de atividades que produzem itens que têm origem nos recursos naturais e foram produzidos com alta tecnologia. São exemplos desses produtos os chamados biofármacos, biocombustíveis e produtos biodegradáveis. A produção nesse ramo se diferencia de outros setores que exploram recursos naturais porque ela faz um uso racional dos recursos e busca substituir produtos feitos a partir de atividades poluentes por itens de origem limpa.

ADAPTAÇÃO

É o nome que se dá ao conjunto de medidas que as sociedades podem adotar para se ajustar aos efeitos do clima, buscando evitar ou moderar possíveis danos causados pelas alterações climáticas — como o aumento das temperaturas, das chuvas, de incêndios, entre outros. Investir em infraestrutura mais resistente a eventos extremos é um exemplo de medida de adaptação.

ECONOMIA CIRCULAR

É um conceito que propõe a mudança dos padrões de produção e consumo — que hoje seguem um modelo linear, começando pela extração de recursos da natureza e passando por manufatura, distribuição, consumo e descarte. A ideia quer prolongar o ciclo de vida de produtos e serviços, trocando o descarte por novos usos. Assim funciona a reciclagem.

SERVIÇOS AMBIENTAIS

É o nome dado para os serviços (ou benefícios) da natureza que decorreram de alguma intervenção humana, como o manejo florestal visando à conservação ou à restauração de uma área degradada. É possível que políticas públicas incentivem a proteção da biodiversidade pagando por esses serviços ambientais, como acontece no programa PSA (Pagamento por Serviços Ambientais) no Brasil.

O que o estudo diz sobre o Brasil

A pesquisa do WRI Brasil afirma que, caso opte pela transição para uma economia de baixo carbono na recuperação pós-pandemia, setores como agricultura, indústria e infraestrutura devem ganhar competitividade, e o país pode sentir esses resultados no curto prazo.

O estudo aponta que a indústria nacional tem tecnologias que podem crescer em escala, como nas áreas de veículos elétricos e energias renováveis. Um dos exemplos de combustíveis limpos que o Brasil usa é o etanol, usado tanto no setor de transportes quanto na eletricidade.

A pesquisa diz que, no caso da infraestrutura, o país pode construir obras mais resilientes e economizar se considerar o fator da mudança climática ao elaborar os projetos. A pesquisa aponta que, em 20 anos, o governo gastou R$ 180 bilhões para recuperar obras danificadas por chuvas, deslizamentos e outros tipos de eventos climáticos extremos.

Por outro lado, a agricultura poderia se beneficiar com a intensificação da pecuária e a recuperação de pastagens degradadas, segundo o estudo. A lógica é que, com a proteção dos recursos naturais e sem mais pressão por desmatamento, o setor agrícola pode aumentar a competitividade, produção e confiança no mercado.

12 milhões de hectares de áreas degradadas é quanto o Brasil pode recuperar, segundo estudo do WRI Brasil; o retorno pode chegar a R$ 19 milhões em dez anos no cenário mais otimista

A pesquisa afirma também que a adoção do modelo de baixo carbono não deve representar uma ruptura para o país, que segundo o texto tem em vigor uma série de políticas “verdes”, como o chamado Plano ABC, voltado à agricultura de baixo carbono. O plano, contudo, ainda recebe pouco investimento se comparado com o financiamento da agricultura, segundo o estudo.

Com a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, e a maior biodiversidade do mundo — 40% das espécies conhecidas estão no Brasil —, o país tem potencial de reduzir emissões, investir em inovação na área de produtos naturais e atrair investimentos, num contexto em que boas práticas ambientais se tornaram um valor de mercado.

R$ 202 bilhões foi o valor dos empréstimos de títulos verdes (usados para financiar projetos de desenvolvimento sustentável) no mundo em 2019, segundo o estudo da WRI Brasil

Quais as críticas à economia verde

A principal crítica que economistas fazem ao modelo de baixo carbono se refere à incompatibilidade entre crescimento e redução de emissões, pois, à medida que as pessoas enriquecem, seu nível de consumo — portanto, suas emissões — também aumentaria.

Outro questionamento se refere ao uso de fontes renováveis de energia, como a solar ou a eólica. Ainda que seja possível substituir a matriz energética para fontes limpas, o custo disso seria muito alto em comparação com o da produção com uso de combustíveis fósseis, que são mais eficientes, segundo eles.

Ambientalistas também criticam a economia verde nos casos em que se propõe a valoração de bens naturais, como áreas verdes. Se esses recursos podem ser convertidos em moeda, pode-se compensar uma área ou recurso destruído por outros de “preço” equivalente — o que não é considerado razoável, pois, na sua lógica, cada lugar tem valor único.

Fonte: Jornal Nexo

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