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Voar menos ou não voar?

quarta-feira, agosto 07, 2019

Um avião sulca o horizonte, em 9 de agosto de 2018, em Frankfurt, Alemanha.
Um avião sulca o horizonte, em 9 de agosto de 2018, em Frankfurt, Alemanha. FRANK RUMPENHORST (GETTY IMAGES)


1,4 bilhão de passageiros aéreos internacionais respondem por 8% das emissões do planeta. Cresce o movimento que propõe reduzir o uso dos aviões ou mesmo deixar de voar durante determinado período


A atriz Emma Thompson voou em abril de Los Angeles para Londres (8.600 quilômetros) a fim de participar dos protestos do Extinction Rebellion, um grupo ativista contra a mudança climática surgido no Reino Unido. Os críticos caíram em cima: realmente valeu a pena, perguntavam-se, deixar uma pegada de duas toneladas de carbono para participar de uma manifestação ambientalista?

Com frequência cada vez maior, alguém no mundo se faz uma pergunta semelhante. E, como resposta, o movimento que prega a redução ou eliminação completa do uso do avião, seja por um tempo ou indefinidamente, está deixando de ser algo pitoresco —uma aposta radical e pouco realista— para se tornar culturalmente relevante. Fala-se disso, principalmente, graças à midiática ativista ambiental sueca Greta Thunberg. Em abril, a adolescente percorreu a Europa (Estocolmo, Estrasburgo, Roma e Londres) em sua campanha de conscientização e viajou de trem —não pega aviões desde 2015. “Recentemente me convidaram para falar no Panamá, Nova York, São Francisco, Abu Dabi, Vancouver… Infelizmente, nosso orçamento de CO2 não permite estas viagens”, disse ela no ano passado pelo Twitter. “Se não levarmos a sério a advertência sobre o limite de 1,5 grau de temperatura, minha geração só poderá voar em caso de emergência,”, acrescentou, referindo-se aos objetivos do Acordo de Paris para limitar a elevação média do aquecimento global. Nesta semana, surgiu a notícia de que Thunberg viajará em um veleiro movido também a energia solar, o Malizia II, para participar da Cúpula sobre a Ação Climática da ONU, para a qual foi convidada. Levará duas semanas para chegar.

Thunberg, como outros ativistas ambientais de hoje em dia, não fala mais de mudança climática, e sim de “emergência climática”. E as emergências, argumentam, devem ser enfrentadas com medidas radicais. Na Suécia, onde ela nasceu, surgiu também o término flygskam, traduzido como “vergonha de voar”, que se espalhou como pólvora nos meios de comunicação. E não só lá: na última reunião anual da Associação Internacional do Transporte Aéreo (IATA, na sigla em inglês), o presidente da instituição, Alexandre de Juniac, advertiu aos 150 diretores presentes que “se não for questionado, esse sentimento crescerá e se difundirá”, segundo relata a Reuters.

Na Suécia vivem as fundadoras do Flygfritt 2020, uma campanha que estimula as pessoas a assumirem o compromisso de não voar durante todo o ano que vem. Maja Rosén e Lotta Hammar pretendem reunir 100.000 adesões —já juntaram umas 20.000, e a iniciativa se estendeu a 10 países. Rosén deixou de pegar aviões em 2008, quando era uma decisão ainda mais minoritária que hoje. “Antes eu não comia carne e não usava o carro por princípio, mas voava de vez em quando. Até que percebi como a situação é grave”, conta por telefone. A maioria das pessoas, segundo ela, não tem consciência da gravidade do problema e tende a achar que as consequências só serão sentidas pelos outros, num futuro longínquo. Mas a situação é tal, insiste, que não se pode esperar que os Governos e instituições reajam: todos devem fazer o que estiver ao seu alcance. “Se pegar um voo diminui as chances de seus filhos sobreviverem, não acho difícil tomar a decisão.”

As emissões do turismo beiram 8% do total mundial, ou seja, equivalem às da pecuária e do transporte em carros, segundo um estudo publicado na Nature Climate Change. E as viagens longas estão em constante crescimento: em 2018 houve 1,4 bilhão de viajantes internacionais, 6% a mais que no ano anterior, diz a Organização Mundial do Turismo. Do total das emissões turísticas, os voos representam 20% —um avião emite até 20 vezes mais dióxido de carbono (CO2) por quilômetro e passageiro que um trem, segundo dados da Agência Europeia do Meio Ambiente. Hoje, quem viaja de Londres a Nova York gera as mesmas emissões que um europeu ao aquecer sua casa durante um ano inteiro, segundo a Comissão Europeia.

Com este panorama, está justificada a vergonha de voar ou, pelo menos, a preocupação com o impacto das nossas escapadas? Recentemente, o mesmo dilema da atriz Emma Thompson coube a William Edelglass, filósofo ambiental que vive no Estado rural de Vermont (EUA), num sítio alimentado com painéis solares. Foi convidado a viajar à China para proferir conferências sobre a mudança climática a 80 outros filósofos, e ele, que trata de priorizar as viagens locais em trem e as videoconferências, acabou decidindo viajar. Segundo conta por telefone, justificou-se a si mesmo pelo fato de serem duas semanas inteiras de seminários e conferências, formando outras pessoas sobre a mudança climática. Mas a posteriori calculou que o voo (de Boston a Xangai) emitirá sete toneladas de CO2.

Manifestantes do movimento ‘Sexta-Feira pelo Futuro’, em Stuttgart, em 26 de julho.
Manifestantes do movimento ‘Sexta-Feira pelo Futuro’, em Stuttgart, em 26 de julho. ANDREAS GEBERT (REUTERS)

Situações como a dele resumem bem a tragédia dos pastos comuns, um caso que o ecologista Garrett Hardin desenvolveu em 1968 na revista Science. O exemplo usado por Hardin é o de um campo de uso público aonde os pastores podem levar seus rebanhos. Se não houver regulação, cada pastor pode explorar as capacidades do terreno além do seu limite, levando cada vez mais animais para seu próprio benefício. Enquanto o possível benefício em curto prazo —alimentar mais animais, ou fazer uma viagem de avião— é individual, os custos em médio e longo prazo — um campo ermo e inútil, o incontrolável aquecimento global— acabam sendo compartilhados.

Os especialistas que aderem à teoria de Hardin acreditam que não se pode pedir aos indivíduos que operem contra seu novo interesse, e que a única forma de evitarmos o desastre é ter regulações que nos impeçam de destruir os recursos. Uma postura oposta, e muito polêmica, é a do filósofo Walter Sinnott-Armstrong, que em 2005 publicou um artigo acadêmico intitulado It's Not My Fault: Global Warming and Individual Moral Obligations (“A culpa não é minha: aquecimento global e obrigações morais individuais”). Nele, apresenta um exemplo: é domingo, e alguém quer dirigir seu carro (que consome muitíssima gasolina) só por diversão. Deve deixar de fazê-lo pelo planeta? Não, diz Sinnott-Armstrong. Podemos criticar sua decisão, pensar que esse motorista deveria se envergonhar de sua pouca consciência ecológica, mas ele a rigor não está violando nenhuma obrigação moral. É o Governo, não o cidadão, argumenta, que seria moralmente obrigado a combater o aquecimento global. A decisão individual de não usar combustíveis fósseis é respeitável e admirável, mas, observa, alguns dos que aplicam essa medida em seu dia a dia acreditam que já cumpriram seu dever e não se envolvem em mudar as políticas governamentais. O debate que Sinnott-Armstrong propõe, sobre ação individual e ação coletiva, vem de longe. Alguns psicólogos chamam de “licença moral” a forma como nos justificamos quando, por exemplo, compramos eletrodomésticos que são eficientes e depois os usamos muito mais que os anteriores, sem culpa. Sentimos que já cumprimos nosso dever.

Sinnott-Armstrong propõe, portanto, que você “desfrute do seu domingo dirigindo enquanto age para mudar as leis, leis que tornarão ilegal que você desfrute do seu domingo dirigindo”. Muita gente discordará. E a sensação generalizada é que os problemas são grandes demais, e as consequências, muito abstratas.

Vários estudos rebatem esta impressão. O filósofo e ativista meio John Nolt, da Universidade do Tennessee, calculou em 2011 que um norte-americano médio causará, com suas emissões ao longo da vida, a morte ou o “sofrimento grave” de duas pessoas. Um estudo publicado em 2016 na Science estabeleceu cifras concretas de quanto custa um de nossos voos: cada tonelada de dióxido de carbono derrete três metros quadrados no Ártico.

Em pleno debate sobre responsabilidade ambiental, o Governo francês anunciou uma taxa ambiental de 1,5 a 18 euros (6,50 a 78 reais) sobre as passagens aéreas, a ser aplicada no desenvolvimento de infraestruturas para transportes mais limpos. Além disso, Holanda e França discutem em seus Parlamentos a proibição de voos cujo trajeto equivalente em trem leve até três horas a mais. Contra isso há o fator custo (recentemente se noticiou que até a estatal ferroviária britânica Network Rail estimula seus funcionários a voarem em vez de pegarem trens, se isso representar uma economia) e o tempo: nem todos querem, ou podem, gastar em transporte as horas que poderiam aproveitar de férias. Até as companhias aéreas parecem ter consciência da crescente preocupação popular, como mostra a nova campanha da holandesa KLM, que estimula os consumidores a priorizarem o trem ou as videoconferências para assuntos de trabalho.

A indústria da aviação procura soluções, como desenvolver combustíveis sustentáveis e aviões mais eficientes. Logo, o plano internacional de redução exigirá que as companhias aéreas compensem as emissões de CO2 financiando projetos de energia sustentável —antes os planos de compensação se centravam no reflorestamento. Até agora, cabia ao cliente escolher se pagaria a compensação ao comprar uma passagem, mas a opção foi sumindo dos sites das empresas. E há outras opções, menos populares no setor. Segundo um relatório da Comissão Europeia vazado em maio, subir os impostos sobre o combustível de aviação reduziria as emissões em 11%... e elevaria o preço das passagens em 10%.

O mais complicado é que deixar de voar ou voar menos exige uma mudança cultural nesta era de exibicionismo. Procuramos experiências, nos sentir parte de um lugar, mesmo que seja por alguns dias; levar conosco uma emoção, além da selfie obrigatória. “Todos queremos ir a destinos exóticos e ainda por cima estar sozinhos por lá”, resume Mónica Chao Janeiro, professora da escola de negócios ESCP Europe e especialista em sustentabilidade e turismo. Mesmo quem se preocupa com o meio ambiente continua valorizando muito as viagens internacionais como uma amostra de “civilização”, afirma Luke Elson, filósofo da Universidade de Reading. Pode ser que um modelo com voos mais escassos e caros, porém mais respeitosos com o meio ambiente, torne o turismo menos democrático —a não ser que seja aplicado um modelo similar ao dos impostos progressivos: cobrar mais de quem viaja mais. E nem sequer isto parece garantir que cuidaremos melhor do planeta. Basta olhar para o Everest, onde a escalada é restrita… e mesmo assim o cume está congestionado e cheio de lixo.

Fonte: El País

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