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Brasil precisa corrigir a forma de exploração dos recursos naturais

quarta-feira, março 06, 2019

Breno Fortes/CB/D.A Press
Métodos de exploração agrícola e de criação de animais são responsáveis por boa parte dos problemas ambientais enfrentados no mundo. O Brasil é o segundo país que mais emite gases de efeito estufa em decorrência da exploração da terra. Mas há como melhorar

O Brasil é o segundo país do mundo com maior emissão de gases de efeito estufa (GEE) por uso da terra, atrás apenas da Indonésia, e o oitavo no ranking de lançamento de dióxido de carbono (CO2) por resíduos. Os dados do Observatório do Clima apontam para a necessidade urgente de corrigir a forma de exploração dos recursos naturais. As perdas de um terço da produção agrícola e os gases de animais da criação pecuária também emitem GEE, mais do que a poluição do ar pela queima de combustível de toda a frota de veículos. Essa reportagem da série sobre sustentabilidade dos quatro elementos — água, ar, terra e fogo — aborda o uso do solo.

O Brasil possui mais de 250 milhões de hectares de terras agrícolas limpas. Do total, 172 milhões de hectares são dedicados a pastagens e 80,3 milhões às culturas de soja, cana-de-açúcar, milho e floresta plantada. A estimativa do WWF-Brasil é de que 50 milhões de hectares de pasto estejam em alto nível de degradação. Recuperar essas áreas, aumentar sua produtividade ou convertê-las em vegetação natural poderiam melhorar o uso da terra.

A produtividade atual das pastagens no Brasil está em 32% do potencial, e um aumento para 49% a 52% liberaria terreno suficiente para permitir o crescimento de culturas até 2040 sem cortar uma única árvore, afirma Edegar de Oliveira Rosa, coordenador do Programa Agricultura e Alimentos do WWF-Brasil. “As commodities têm grande papel no uso da terra no Brasil, e com expectativa de aumento da demanda, porque seremos 9 bilhões de pessoas no planeta em 2050.”

Baixa eficiência

O Brasil deve aumentar em 40% a produção de alimentos até lá. “Essa demanda ocupa a terra, gera especulação imobiliária e desmatamento, com efeito grave no aquecimento global. No entanto, o grau de eficiência de utilização das áreas abertas é muito baixo e pode ser otimizado”, explica Rosa. Segundo ele, projeto do Instituto Centro Vida e do Imaflora mostrou que é possível aumentar a produção de carne em quatro vezes, reduzindo emissões por quilo em 90%.

“Não é preciso mudar o sistema, porque a agricultura é importante para o desenvolvimento da fronteira agrícola do país. Mas é possível melhorar a eficiência, ganhar rentabilidade e reduzir emissões”, pondera. “Não precisamos ocupar a Amazônia. É possível montar lá um modelo de alta tecnologia que concilie a biodiversidade”, aposta.

Rosa afirma que, nos últimos 25 anos, 75% das moléculas desenvolvidas pela indústria química tiveram origem na biodiversidade. “É possível optar por modelos mais inclusivos, sem desmatamento”, sustenta. No Cerrado, onde a perda de mata nativa foi de 6,7 mil quilômetros quadrados em 2018, depois de ter atingido 14 mil em 2007, há iniciativas de aproveitamento das cadeias de baru, pequi e outras espécies naturais do bioma, que podem ser incluídos na dieta ou na indústria. “Dá para aproveitar a biodiversidade sem degradar o solo”, afirma.

Estudo inédito da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), no entanto, alerta que pode ser tarde demais. O primeiro relatório global da FAO, lançado em fevereiro deste ano, traz dados alarmantes para o futuro do planeta ao evidenciar que “a biodiversidade da Terra está desaparecendo, colocando o futuro de nossos alimentos, meios de subsistência, saúde e meio ambiente sob grave ameaça.” Menos biodiversidade significa que plantas e animais ficam mais vulneráveis a pragas e a doenças, o que coloca em risco a segurança alimentar e a nutrição humanas.

O relatório com informações de 91 países aponta a diminuição de plantas nos campos, o aumento do número de raças de gado em risco de extinção e queda no estoque de peixes. “Precisamos usar a biodiversidade de maneira sustentável para responder aos crescentes desafios das mudanças climáticas e produzir alimentos de uma maneira que não agrida o meio ambiente”, afirma o diretor-geral da FAO, José Graziano da Silva.
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Na opinião de Marina Lacôrte, da campanha de Agricultura e Alimentação do Greenpeace Brasil, a agropecuária tem participação crucial nos principais problemas ambientais. O sistema convencional, segundo Marina, é dependente de agrotóxicos que degradam o solo e contaminam a água. “Tais substâncias também destroem a biodiversidade e causam a morte de polinizadores fundamentais para a própria produção de alimentos. “A população de abelhas já está sendo fortemente afetada, e sua redução pode resultar na diminuição de 35% das colheitas de todo planeta”, destaca.

Excelência

No Brasil, de acordo com o assessor técnico sênior da Confederação Nacional da Agricultura e Pecuária (CNA), Rodrigo Justus, a sustentabilidade da terra está ligada às boas práticas. “O Brasil é considerado hoje um dos países referência em tecnologia agrícola, mas nem todos os produtores têm excelência. Nosso desafio é reduzir a diferença entre os grandes agricultores, de alta tecnologia, e as atividades dos pequenos, de baixa qualificação”, sustenta. Para isso, é preciso capacitação e financiamento para substituir tecnologias antigas por modernas.

Sobre a compensação de emissão de gases, Justus afirma que se faz com pastagem em solo corrigido. “A grande captura é feita pelas plantas. O pasto absorve o gás metano e o óxido nitroso”, explica. A redução no tempo para engordar o boi também é uma iniciativa tecnológica para reduzir as emissões. “A emissão na pecuária é mitigada com gado melhor, boa nutrição, bom manejo e rodízio de pastagem”, resume.

Marcelo Augusto Boechat Morandi, chefe-geral da Embrapa Meio Ambiente, reconhece que o país cometeu erros no passado. “O Brasil tem cerca de 50 milhões de hectares de pastagens degradadas, mas, possuímos tecnologia e conhecimento para tornar essa área produtiva e multiplicar a produção de alimentos e energia sem necessidade de avançar sobre vegetação nativa”, diz. “É possível produzir e preservar. Em 2030, podemos ser o maior produtor mundial de alimentos e, ao mesmo tempo, um país com imensa área preservada”, garante.


Gestão de resíduos é ineficaz

A lama da Samarco e da Vale, que causou duas tragédias ambientais em Minas Gerais, é um exemplo de como os resíduos das atividades humanas impactam o planeta. O Brasil ainda carece de políticas públicas para a gestão desses materiais, diz o presidente da Associação Brasileira de Empresas Tratamento de Resíduos e Efluentes (Abetre), Luiz Gonzaga. “Até hoje, o país não implementou os instrumentos necessários para o aprimoramento da gestão pública de resíduos e efluentes”, afirma.

Gonzaga afirma que a Abetre desenvolve projeto nessa área e que há empresas de grande porte trabalhando em tecnologias mais modernas para melhorar processos produtivos. A Política Nacional de Resíduos Sólidos (PNRS, Lei nº 12.300/2010) trata dos aspectos ambientais e de sustentabilidade relacionados à geração e destinação de todos os tipos de resíduos, inclusive o lixo. Passados nove anos da PNRS, no entanto, alguns dos principais dispositivos ainda não foram implementados.

Por isso, o papel das empresas de tratamento e destinação ganhou relevância. “Cabe ao setor produtivo assegurar efetiva proteção ambiental quanto aos impactos dos resíduos e efluentes gerados nas atividades humanas e contribuir para o desenvolvimento sustentável por meio de tecnologias e serviços de reaproveitamento e reciclagem”, destaca Gonzaga.

Ele não acredita, contudo, que seja possível zerar completamente o impacto dos resíduos no meio ambiente. “Considerando o país como um todo, há restrições de ordem técnica, econômica e de competitividade que limitam a eliminação completa”, reconhece.

Fonte: Correio Braziliense

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