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As idas e vindas de um projeto inovador

sexta-feira, dezembro 28, 2018

Bernardo Gradin: "A curva do pioneirismo foi muito mais árdua do que a gente esperava. Não esperávamos que os processos estivessem tão distantes da escala"
Bernardo Gradin se viu nos últimos quatro anos enredado nos sucessivos reveses de seu projeto de etanol de segunda geração, produzido a partir de resíduos da cana (palha e bagaço). Mas os principais nós parecem, enfim, desatados. Após levar disputas com fornecedores a câmaras arbitrais e gastar dezenas de milhões a mais para desenvolver soluções tecnológicas próprias - o que levou os investimentos totais a superarem US$ 220 milhões -, o sócio da GranBio se sente seguro para anunciar para janeiro próximo a retomada da operação da usina que produzirá a inovação, agora já em escala comercial.

A volta à ativa da Bioflex, que foi inaugurada em 2014 no município de São Miguel dos Campos (AL) e começou a enfrentar sérios problemas em 2016, se tornou viável porque a GranBio passou os últimos anos destrinchando e reinventado cada etapa de seus processos. O alento, diz Gradin, é que os percalços foram tantos que deverão credenciar a unidade a se tornar também uma fornecedora de tecnologia a outros empreendimentos de etanol celulósico.

A "reinvenção tecnológica" da planta foi juridicamente assegurada depois que a GranBio fechou um acordo com o principal fornecedor de equipamentos do projeto, o grupo italiano Mossi Ghisolfi (MG), e encerrou uma disputa que se arrastava desde 2014. Diante de problemas apresentados já naquele ano com as soluções elaboradas pela italiana, a GranBio inicialmente reclamou com a própria parceira. A MG, porém, vivia um momento turbulento, com problemas financeiros agravados pela morte de seu controlador, Guido Ghisolfi, em 2015.

Para poder promover ajustes na tecnologia sem ter que pedir autorização ou compartilhá-las com a MG, a GranBio entrou com um pedido de arbitragem na Inglaterra em 2016, mesmo ano em que suspendeu a operação da Bioflex. Em 2017, a empresa italiana pediu concordata nos EUA e na Itália, o que aprofundou as incertezas.

Parte da solução chegou no início deste ano, quando a seguradora inglesa contratada para garantir o funcionamento da tecnologia da MG - e que assumiu as rédeas a empresa com o andamento da concordata - propôs um acordo. Segundo Gradin, ela abriu mão do compartilhamento das novas tecnologias e aceitou arcar com um ressarcimento. Após a concordata da MG tramitar na Justiça italiana, a GranBio recebeu, no mês passado, um depósito de US$ 25 milhões, de acordo com documentos anexados ao processo, de acesso público.

Gradin ainda reivindica um ressarcimento de seguradoras brasileiras, que haviam garantido o funcionamento da engenharia e da tecnologia da planta. O valor requerido, diz Oswaldo Dalla Torre, diretor da GranBio, está na casa das "centenas de milhões de reais". Se as conversas não chegarem a um consenso, Gradin afirma que poderá entrar com um processo.

Outra frente de batalha da GranBio foi com a TRLLC, sua sócia na American Process Inc. (API). Em junho de 2015, a API, na qual a GranBio tinha 25% de participação, firmou acordo para fornecer à brasileira uma tecnologia para a produção de açúcares a partir da celulose quebrada da biomassa. Em novembro de 2016, em meio a diversas intervenções na planta alagoana, a API, sob o comando da TRLLC, entrou com um processo na Justiça americana contra a GranBio acusando-a de apropriação de segredos comerciais e quebra de contrato.

Conforme documentos públicos do processo, a GranBio defendia que o contrato garantia que melhorias na tecnologia seriam suas. Para evitar uma longa briga nos tribunais, a brasileira convenceu o juiz americano Mark Cohen, em 26 de julho de 2017, a manter a disputa em processo arbitral. Mas o processo foi encerrado depois que a GranBio exerceu seu direito de compra dos demais 75% de ações na API, em março deste ano.

Mas, enquanto travava essas disputas, a GranBio contratava especialistas e consultorias para reinventar processos desde a fase de pré-tratamento da biomassa até a etapa de fermentação dos açúcares.

"A curva do pioneirismo foi muito mais árdua do que a gente esperava. Não esperávamos que os processos estivessem tão distantes da escala. Acreditávamos que a tecnologia estava muito mais pronta do que realmente estava", afirma Gradin. Os aportes adicionais para resolver os problemas tecnológicos da planta atingiram R$ 170 milhões, que se somaram aos R$ 600 milhões investidos para erguê-la.

Entre 2016 e 2017, após uma primeira etapa de intervenções, a GranBio conseguiu rodar a Bioflex por 120 dias ininterruptos. Antes, com a tecnologia italiana, o máximo havia sido seis dias. Os investimentos foram mantidos inclusive em 2017, quando a GranBio ligou sua unidade de cogeração de energia anexa à Bioflex e ao menos aproveitou os altos preços da energia na época. Para 2019, o empresário acredita que será possível produzir 30 milhões de litros de etanol e faturar cerca de R$ 120 milhões, somando os ganhos com a cogeração.

Mas os planos de Gradin para o futuro foram redimensionados. Ele já não cogita erguer outras biorrefinarias, como queria. Mas acredita que a Bioflex poderá dar lucro operacional já em 2019 e não descarta construir uma segunda planta de etanol "2G" em 2022. Paralelamente, procura parceiros para licenciar a tecnologia desenvolvida pela GranBio.

Fonte: Valor Econômico

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