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Custos e receitas: o que importa mais na virada do ciclo pecuário?

quinta-feira, novembro 22, 2018


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Caro pecuarista,
Desde 2015, os preços do boi gordo e também do bezerro estão com viés cíclico de queda. Será que este movimento de baixa está próximo do fim? Será que teremos viés de alta para os próximos anos? Os dados históricos do ciclo pecuário apontam que 2019 pode ser um ano de virada, ou, no mínimo, de estabilidade para posterior virada em 2020.
A pecuária é uma atividade plurianual e entender o momento atual pode ser decisivo para sua rentabilidade nos próximos anos. Como pesquisadora de mercado, ainda não tenho bola de cristal para acertar o que irá efetivamente ocorrer. Mas, como pecuarista, uso as informações que vou compartilhar abaixo para tomar decisões mais assertivas, gerenciando os riscos econômicos.
ENTENDENDO OS PRINCÍPIOS ECONÔMICOS: análises de séries temporais
Produtor, na economia, quando analisamos o comportamento de preços, estamos falando de um conceito denominado séries temporais. Por meio de ferramentas estatísticas, os economistas buscam determinar um padrão de comportamento dos preços. Isto tudo tem como objetivo gerar informações que ajudem o empresário ou o agente econômico a tomar decisões.

Estas análises permitem identificar quatro padrões de comportamento dos preços. O primeiro é o aleatório, isto é, não há padrão.  O segundo é a sazonalidade, que costuma durar um ano. No caso da pecuária, este padrão anual já foi analisado para o bezerro e para o boi gordo. O terceiro é o ciclo, que são flutuações nos valores com duração superior a um ano, tema desta análise. E, por fim, existem as tendências, assunto para um próximo texto.
QUEM DITA O MERCADO É A FÊMEA
Produtor, a máquina produtiva da pecuária é a vaca! O princípio básico para entender o ciclo é compreender o abate das fêmeas. Veja na figura 1 a participação trimestral das fêmeas no abate total. Veja, na linha preta, que há uma tendência de sobe e desce. Se colocássemos algumas vacas em um carrinho seria exatamente como se elas andassem em uma montanha-russa.

No período recente, este ciclo (de uma baixa a outra) dura seis anos, mais ou menos, com tendência a reduzir em função dos ganhos em produtividade. Mas houve períodos passados em que o ciclo durou dez anos.
Figura 1.
Participação das fêmeas no abate trimestral total (%), 2005 a 2018.

Fonte: Elaborado por Crespolini, com base nos dados do IBGE

As oscilações ao longo de um ano são normais, há uma maior concentração de abate de fêmeas no primeiro trimestre, reduzindo sucessivamente com o passar dos meses. Este é mais um motivo pelo qual é a “fêmea quem manda no mercado”. Nos dois primeiros trimestres, além de ser um período de maior oferta de gado gordo, a oferta de fêmeas ajuda a pressionar a arroba do macho.
Cabe ressaltar que nossa pecuária ainda tem relativa baixa produtividade e que seria possível, mesmo com aumento do abate de fêmeas, manter a produção de bezerros por estratégias nutricionais. No entanto, na prática, não é isso que ocorre.  Sendo, portanto, o abate determinante nos preços. Vamos em frente na análise…
O QUE EXPLICA ESSE COMPORTAMENTO CÍCLICO DO ABATE DE FÊMEAS?
Caro leitor, na economia falamos que os agentes racionais reagem a preço. Isto é, quando o preço sobe os produtores tendem a aumentar a oferta. Isto também pode ser denominado de efeito manada. Em outras palavras, significa que a maior parte dos agentes econômicos toma decisões na mesma direção. É o que nós, produtores rurais, fazemos. Quando os preços do bezerro melhoram, a maior parte dos criadores tende a segurar as fêmeas.

Veja agora, na figura 2, na linha verde, como os preços do Indicador do Bezerro (Esalq/BM&FBovespa – Mato Grosso do Sul, em valores reais – deflacionados pelo IGP-DI de setembro de 2018) vão justamente no sentido contrário da participação das fêmeas no abate total. Quando a linha verde desce, as barras vermelhas sobem! Efeito manada!
Figura 2.
Participação das fêmeas no abate trimestral total (%) e evolução dos preços do bezerro (valores reais – média trimestral), 2000 a 2018.


Fonte: Elaborado por Crespolini, com base nos dados do IBGE e do Cepea

A figura 2 também nos dá uma conexão para o próximo texto que escreverei aqui para a Scot Consultoria: há um comportamento de tendência de alta do preço do bezerro. Veja, que conforme demonstram os preços deflacionados, isto é, em dinheiros de hoje, por mais que houveram quedas de preços anual e ciclos de alta e baixa, a tendência é de um bezerro mais caro no longo prazo.
É SÓ O PREÇO DO BEZERRO QUE SE COMPORTA DE MANEIRA CÍCLICA?
A relação entre abate de fêmeas e preço do bezerro é mais direta e mais fácil de ser compreendida. Mas veja na figura 3 como os preços do bezerro e do boi gordo (Indicador Esalq/BM&FBovespa, em valores reais (deflacionados pelo IGP-DI de setembro de 2018) também caminham juntos.  Por mais que ocorram variações mais ou menos abruptas, a tendência é de subida e descida nos mesmos momentos. Como já mencionado, com a tendência de alta do preço do bezerro o espaço entre as linhas verdes (boi gordo) e laranja (bezerro) da imagem reduziu, mas o movimento continua o mesmo.

Figura 3.
Indicador Esalq/BM&F Bovespa do Bezerro e do Boi Gordo, média mensal, em valores reais, 2000 a 2018.

Fonte: Elaborado por Crespolini, com base nos dados do Cepea

A figura 3 também ilustra um ponto importante: faz três anos, desde 2015, que os preços do boi e do bezerro apresentam viés de baixa. Por mais que houve variações, inclusive de alta, de um mês para o outro, o “carrinho da montanha russa” mostra uma tendência de descida naquela curva maior do ciclo pecuário.  Portanto, se historicamente o ciclo no período recente tem em torno de seis anos, esta é uma evidência de possível virada de ciclo.
Para ficar um pouco mais ilustrativo, veja a figura 4, onde os preços do bezerro e do boi gordo são apresentados com médias anuais. As linhas pontilhadas mostram o intervalo dos ciclos de preços recentes e é possível visualizar, claramente, a tendência destes dois mercados caminharem juntos.
Figura 4.
Indicador Esalq/BM&F Bovespa do Bezerro e do Boi Gordo, média anual, em valores reais, 2000 a 2018.

Fonte: Elaborado por Crespolini, com base nos dados do Cepea

Vamos juntar as análises? Veja na última figura todos os dados mencionados anteriormente. Chega a ser lindo observar como os preços do boi gordo (linha verde) e do bezerro (linha laranja) flutuam no sentido contrário do abate de fêmeas (barras azuis). E, também, em como os preços caminham na mesma direção. Acho isto incrível no mercado! Não é possível prever o futuro, muito menos a variação dos preços de uma semana para a outra, mas quando nos afastamos e olhamos o gráfico o efeito do ciclo no mercado é impressionante.
Figura 5.
Síntese dos dados – abate de fêmeas, preços do bezerro e do boi gordo, em valores reais, média anual, 2000 a 2018.

Fonte: Elaborado por Crespolini, com base nos dados do IBGE e do Cepea

COMO ESTAS INFORMAÇÕES AFETAM A SUA E A MINHA TOMADA DE DECISÃO?
Produtor, cada empresário tem um perfil. E vou encerrar esta análise explicando como estas informações irão afetar a minha tomada de decisão. Mas, você tem que ter em mente que eu tenho um perfil de pecuarista que gosta de baixo risco. E, além disso, eu prefiro olhar para os meus custos, que é o que eu controlo, ao invés de olhar para o preço de venda, onde eu não tenho controle.

Como eu faço a recria-engorda, eu olho esta virada do ciclo com muita atenção: ao invés de comemorar este viés de alta, eu fico preocupada. O bezerro é o item que mais pesa no meu custo total. Ou seja, na virada do ciclo eu me preocupo muito mais com meus custos do que com as minhas receitas. Vejo que agora é um momento para eu aproveitar para fazer a reposição. Inclusive, se possível, comprando animais mais jovens para aumentar meu estoque. Isto claro, se meu arrendamento permitir ou até mesmo se eu achar outra área para arrendar.
Além disso, e de extrema importância, é que começo a me preparar para ter um fluxo de caixa para desembolsar mais pela reposição em 2019 e principalmente em 2020/2021. Pecuária, diferente da agricultura, não é um investimento anual. No longo prazo, este bezerro mais caro que eu comprar em 2020, talvez mais em 2021, poderá ser o boi gordo a ser vendido numa possível virada de ciclo para baixa. E é este o perigo.
Conheço vários pecuaristas que amargaram margens apertadas ou até mesmo negativas em virtude dos bezerros comprados em 2015. Naquele ano, também com as altas do boi gordo, muita gente se animou com a atividade e foi no “efeito manada”. No investimento plurianual, amargou em 2016/2017. Alguns amargam até agora em 2018. Espero que este não tenha sido seu caso. A responsabilidade não foi do boi gordo na baixa, mas sim do bezerro comprado na alta.  O Scot e o Breno de Lima também falaram um pouco sobre isto no episódio 139 do Mercado sem rodeios.
Agora, pecuarista, se eu fosse criadora e, com base nas informações acima, demorasse para tomar uma decisão, eu diria que estou atrasada. Por quê? Se começasse a investir agora nas vacas, até elas emprenharem e os bezerros desmamarem, iria demorar pelo menos um ano e meio. Se o ciclo virar em 2019, o efeito manada de criadores investindo nas fêmeas irá começar. Sabe aquele ditado: quem chega primeiro bebe água limpa? Se a tomada de decisão do criador em ver as “vacas lindas” e ir contra o efeito manada não for logo, outros chegarão antes na virada do ciclo.
Por fim, é importante enfatizar que, além do abate de fêmeas e da oferta de animais, outros fatores podem influenciar a agilidade e intensidade da virada do ciclo. Entre estes fatores está a mudança de governo e a expectativa de retomada do crescimento econômico. Disponibilidade de crédito, investimentos estrangeiros e taxa cambial afetarão o mercado. Fique de olho!
Fonte: Blog do Scot - Canal Rural

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