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15 mentes brilhantes que mudaram o agronegócio

quinta-feira, setembro 05, 2019

Crédito: Divulgação

Quem são os brasileiros que nas últimas décadas ajudaram a transformar o País no celeiro do mundo

Como será a agropecuária do futuro e como viverão os produtores rurais lá na frente? Qual será a pegada de um setor em que fazendas urbanas e verticais dividirão espaço com um campo conectado e gerido por inteligência artificial? As próximas décadas serão de mudanças profundas. Mas, para chegar até aqui, também foram necessárias transformações avassaladoras forjadas no século passado quando a enxada primitiva começou a dar lugar à ciência baseada e adaptada aos trópicos. Nesse caminho, o setor do agronegócio contou com figuras de uma visão extraordinária do que poderia vir a ser os dias atuais. Não por acaso, o Brasil é o celeiro do mundo e agora cabe às novas gerações que estão assumindo fazendas e negócios, buscar por outras inovações.

Como parte das comemorações dos 15 anos da DINHEIRO RURAL, nesta edição são lembrados alguns nomes que revolucionaram a agropecuária e que sem as suas contribuições o campo seria mais pobre e as cidades teriam menos alimentos. São muitos os que deveriam estar na lista a seguir, além do grupo escolhido. Mas, através deles, todos os demais nomes que fizeram do Brasil um dos maiores produtores globais proteína animal, grãos, fibras e energia são reverenciados.

De olho no campo

A Dinheiro Rural e o agronegócio

Em 2019, a revista DINHEIRO RURAL completa 15 anos. O projeto que nasceu na equipe da Dinheiro, a única revista semanal de economia do País, tinha uma missão: falar de negócio e ser porta voz de um público que até então não era visto como de empresários. A Dinheiro Rural ajudou a mudar a imagem do agropecuarista, não importando o tamanho de sua propriedade. Porque no fim das contas todos são empreendedores no campo, em busca de sustentabilidade. Desde julho, o Especial 15 Anos DINHEIRO RURAL está mostrando como o setor chegou até aqui e quais os principais desafios para continuar crescendo. Acompanhe essa saga.

“O Brasil se transformou porque soube fazer a revolução verde aqui”

Alysson Paolinelli, 83 anos, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Milho

Nas últimas 5 décadas, o Brasil vem fazendo a sua revolução verde para produzir cada vez mais grãos, proteína e energia com sustentabilidade. Foi com a criação da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), em 1973, que a pesquisa passou a dar respostas coordenadas e estruturadas para as mudanças que estavam por vir. O nome de maior relevância após o seu nascimento foi o do engenheiro agrônomo Alysson Paolinelli, então Ministro da Agricultura entre os anos de 1974 a 1979. Como estudioso da região do Cerrado, ele fez parte de um movimento para enviar ao exterior cerca de 2 mil pesquisadores. Ao retornarem ao País, suas missões eram aplicar os conhecimentos na pesquisa brasileira. Em 2006, ganhou o prêmio The World Food Prize, o equivalente a um Nobel, mas nesse caso da alimentação.MARCO ANKOSQUI / AG. ISTOE


“A pecuária mudou muito e para melhor”

Eduardo Macedo Linhares, 88 anos, produtor de gado no Rio Grande do Sul

O pecuarista Eduardo Macedo Linhares, dono da Estância São Pedro, em Uruguaiana (RS), representa uma geração gaúcha de criadores de gado. Foi ela que aprimorou os bovinos de origem europeia, principalmente os das raças angus e hereford, que hoje estão presentes na maior parte dos programas de carne de qualidade. Linhares é o herdeiro de um trabalho de seleção genética iniciada pelo médico João Vieira de Macedo há mais de 1 século. Seu mérito, ao herdar a seleção de gado da Cabanha Azul, foi dar continuidade às pesquisas de campo. Na Gap Genética, marca criada por ele, nasceu um dos mais importantes programas de avaliação genética do País, o Natura. O programa que avalia animais rústicos e criados no pasto, destinados à produção de carne, também foi o primeiro a ser credenciado pelo Ministério da Agricultura para emitir o Certificado Especial de Identificação e Produção (CEIP), há cerca de 3 décadas.


“O futuro do Brasil está ligado à sua terra”

Ana Maria Primavesi, 99 anos, agrônoma e pesquisadora em ciências do solo

Em 2012, a agrônoma austríaca, naturalizada brasileira em 1950, Ana Maria Primavesi, recebeu da Federação Internacional dos Movimentos da Agricultura Orgânica (IFOAM, na sigla em inglês), com sede na Alemanha, o prêmio The One World Award. A justa homenagem, quando ela já havia completado 92 anos, foi um reconhecimento pelo conjunto de sua obra.
Como pesquisadora, Primavesi foi responsável por inúmeros avanços nos estudos das ciências do solo, elevando o patamar de entendimento de sistemas agroecológicos e da agricultura orgânica. Ela foi a primeira agrônoma a afirmar que o solo tem vida. E esteve à frente da fundação da Associação de Agricultura Orgânica, publicou 11 livros e mais de 90 artigos científicos, além das colaborações frequentes. Entre os livros, Manejo Ecológico do Solo continua como obra de referência nas ciências agrárias.

“O solo e a água são os recursos mais importantes da humanidade”

Herbert Bartz, 82 anos, no livro “O Brasil possível”, que conta a história do produtor de Rolândia (PR)

A agricultura seria outra se não fosse a teimosia do produtor Herbert Bartz, pioneiro e difusor do sistema de Plantio Direto no Brasil. No inícios dos anos 1970, Bartz peregrinou pela Alemanha, Inglaterra e Estados Unidos, em busca de uma tecnologia que mostrasse como plantar uma semente no solo sem revolvê-lo. Nessa época, com o início da mecanização intensiva, a erosão provocada pelas chuvas era um pesadelo para os produtores. A ideia, então, era plantar sobre a palha da cultura anterior, mas não havia tecnologia. Com suas pesquisas em andamento, Bartz semeou 200 hectares em outubro de 1972. Hoje, o Brasil é um dos países que mais utiliza o sistema no mundo. Do total de 111 milhões de hectares, 32 milhões estão aqui. Junto com Bartz merece reconhecimento outros dois pioneiros na técnica: Frank Dijkstra e Manoel Henrique Pereira.

“O associativismo é uma forma de organização social, coletiva e democrática”

Antonio José Rodrigues Filho (1913-2000), um dos fundadores da Organização das Cooperativas do Brasil

A Organização das Cooperativas do Brasil (OCB), nasceu durante o Congresso Brasileiro de Cooperativismo, em 1969. Seu primeiro presidente não poderia ser outro que não o agrônomo Antonio José Rodrigues Filho, uma personalidade que já era liderança cooperativista de estaque para a época. Ele era, por convicção, um idealista crente de que somente com representatividade forte o desenvolvimento econômico se torna sustentável. Hoje, há no mundo 1 bilhão de pessoas empreendendo em sistemas cooperados. No agronegócio brasileiro há 1,5 mil cooperativas que faturam cerca de R$ 200 bilhões por ano. São 180 mil agricultores e pecuaristas integrados, basicamente em pequenas propriedades rurais. Rodrigues Filho foi presidente por duas gestões da OCB, até 1976. Antes disso, ele também ajudou a criar a Cooperativa de Plantadores de Cana de Guariba (Coplana) e a Organização das Cooperativas do Estado de São Paulo (Ocesp).


“Tenho paixão pela agronomia.É um vício.”

Fernando Penteado Cardoso, 104 anos, em entrevista à Dinheiro Rural

Em setembro, o agrônomo paulistano Fernando Penteado Cardoso completa 105 anos de idade e 83 anos de carreira. Formado nas primeiras turmas da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP), em Piracicaba (SP), Cardoso é hoje uma das maiores personalidades vivas do agronegócio. Foi amigo particular do americano Norman Borlaug (1914-2009), Nobel da Paz em 1970 e pai da Revolução Verde. A influência fez de Cardoso o próprio precursor dessa revolução no Brasil, ao criar a Manah, empresa de fertilizantes nos anos de 1940. A Manah chegou a ser a segunda maior empresa de adubos no Brasil, com 15 fábricas e 2 mil funcionários. Em 2001, criou a sua fundação de pesquisa, a Agrisus – Agricultura Sustentável, com o objetivo de fomentar a inovação através de bolsas a estudantes e cientistas.

“Produzir carro e álcool é fácil. Ir à Lua é fácil. Difícil é produzir alimento”

Maurilio Biagi (1914-1978), no livro “O Semeador do Sertão”, de Geraldo Hasse

O empreendedor paulista Maurílio Biagi, nascido em Pontal (SP), é o ícone da pujança do setor sucroenergético brasileiro. Além de ajudar a elaborar o projeto que introduziu o etanol na matriz energética nacional, através do Programa Nacional do Álcool (Proálcool), Biagi foi o primeiro homem a implantar técnicas de correção de solos para o plantio da cana em larga escala. Em 1936, com outros sócios comprou a Usina Santa Elisa, a primeira fábrica financiada pelo Proálcool. A Santa Elisa saiu de um pequeno engenho para se tornar uma das mais bem equipadas usinas de açúcar e álcool do País. O sucesso de Biagi transformou a realidade da região de Ribeirão Preto, tornando o Estado de São Paulo o maior pólo da produção de açúcar e etanol. Morto aos 64 anos, o corpo do empreendedor foi sepultado na Usina Santa Elisa.

“A missão da Cooxupé é ser a melhor solução para produtores e consumidores”

Isaac Ferreira Leite (1911-2006), produtor e fundador da Cooxupé

O produtor de café Isaac Ferreira Leite ajudou a fundar e foi o primeiro presidente da Cooperativa Regional de Cafeicultores de Guaxupé (Cooxupé). Hoje, ela é a maior do mundo nesse setor, com 14 mil cooperados. Do total, 95% são pequenos produtores que vivem em cerca de 200 municípios do sul de Minas Gerais, no Cerrado mineiro e também no Vale do Rio Pardo, no estado de São Paulo. A receita foi de R$ 3,7 bilhões em 2018, com uma produção de 8,4 milhões de sacas de 60 quilos. À frente da cooperativa por 35 anos, onde ficou até 2003, Ferreira Leite conseguiu transformá-la na maior por apostar na capacidade de reverter a tecnologia em benefício dos produtores. Não por acaso, por conta da inovação de processos e de manejo das lavouras, a Cooxupé foi a pioneira na comercialização de cafés diferenciados.

“O aumento da competitividade é uma realidade na pecuária de corte brasileira”

Luiz Alberto Fries (1951-2007), geneticista especialista em melhoramento animal

O melhoramento animal no Brasil tem, nos estudos do geneticista Luiz Alberto Fries, um ponto de inflexão, de mudança definitiva de direção. Fries foi um grande estudioso em uma época na qual a pecuária buscava dar um salto de qualidade. Como doutor em Melhoramento Animal pela Iowa State University, nos Estados Unidos, teve como mérito conciliar suas atividades acadêmicas e científicas com atividades técnicas, inspirando ou participando da criação de alguns dos principais programas de seleção bovina no País, entre ele o Gensys. Foi, também, coordenador do Programa de Melhoramento de Bovinos de Carne (Promebo), da Associação Nacional de Criadores. Durante sua carreira, publicou 10 livro e 8 capítulos em obras de equipe, além de 40 trabalhos em revistascientíficas, mais 150 trabalhos em anais de congressos e simpósios.

“No Brasil, o desenvolvimento da agricultura era uma necessidade inquestionável”

Luís Fernando Cirne Lima, 86 anos, no prefácio do livro “Sol da Manhã – Memória da Embrapa”

Na década de 1970, o Brasil era um importador de alimentos. Foi então que o governo federal, em 1972, determinou a criação de uma unidade nacional de pesquisa, chamada Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), vinculada ao Ministério da Agricultura. Na sua criação, uma equipe liderada pelo então Ministro da Agricultura, Luís Fernando Cirne Lima, contou com 60 dias de prazo para colocar a Embrapa de pé. Foi assim que no dia 28 de março de 1973 nascia o maior centro global em tecnologia para áreas tropicais. A Embrapa herdou todas as antigas células de pesquisa do País, composta por 92 bases entre institutos regionais, estações experimentais e imóveis. Foi com Cirne Lima que grupos de trabalho definiram objetivos e funções da pesquisa, identificaram suas limitações, planejaram mudanças na legislação e adequaram as formas de financiamento da ciência.

“O agribusiness é pedra fundamental do desenvolvimento do País como sociedade justa”

Ney Bittencourt de Araújo (1937-1996), empresário e fundador da Associação Brasileira do Agronegócio

Em 1971, o agrônomo Ney Bittencourt de Araújo assumiu a presidência da empresa fundada em 1945 por seu pai, Antônio Secundino de São José. O nome dela? Agroceres. Foi a Agroceres que colocou no mercado brasileiro os primeiros híbridos de milho. Mas coube a Bittencourt, como era chamado, a sua expansão para outros segmentos, como pastagens, hortaliças, genética e nutrição. E mais que isso, ele passou a atuar como um empreendedor visionário. Foi dele a ideia de fundar uma entidade inovadora para época, 1993, a Associação Brasileira do Agribusiness (ABAG), hoje Agronegócio. Bittencourt acreditava em 4 linhas para reger o setor, que continuam atualíssimas: o desenvolvimento sustentável é um processo organizado; respeito ao meio ambiente é uma tarefa; integração à economia global; as profundas desigualdades de renda e os bolsões de miséria precisam ser eliminados.FELIPE GABRIEL

“O agro é paz”

Roberto Rodrigues, 77 anos, coordenador do Centro de Estudos do Agronegócio da Fundação Getúlio Vargas

O sexto andar da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, onde está o Centro de Estudos do Agronegócio da instituição, é uma espécie de local de peregrinação para qualquer assunto referente ao campo brasileiro. Isso porque no andar está a sala do agrônomo Roberto Rodrigues, um dos nomes de maior peso na história recente do setor. Ele sempre foi um estudioso e também um agregador de pesquisadores e de pensadores ao seu redor. É, também, uma das vozes mais ativas em prol do cooperativismo. Foi presidente da Aliança Cooperativa Internacional e da Organização das Cooperativas Brasileiras, entidade que o pai, Antonio José Rodrigues Filho, ajudou a fundar. Hoje, Rodrigues é embaixador especial na Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) para cooperativas.

“Ninguém cresce sozinho”

Shunji Nishimura (1910-2010), para o portal da Fundação Shunji Nishimura

A frase do imigrante japonês Shunji Nishimura virou lema da empresa que ele constituiu no País, a Jacto. De uma pequena casa de ferragens, inaugurada em 1939, em Pompeia (SP), Nishimura criou uma das maiores fabricantes de máquinas e implementos agrícolas do País, com um faturamento de R$ 1,4 bilhão em 2018. Mais do que isso, ele é um dos maiores nomes da mecanização do campo, criando a primeira polvilhadeira de defensivos. O equipamento é o predecessor dos atuais pulverizadores costais. Em 1973, o empreendedor criou o Departamento de Pesquisa e Desenvolvimento da Jacto, junto com o projeto para a primeira colhedora de café do mundo. Quando faleceu, aos 99 anos, deixou como maior legado um dos centros de ensino mais importante do setor, a Escola Agrícola de Pompeia, fundada em 2008.

“A poluição, a mudança da ecologia, tudo isso está alertando toda a humanidade”

Shiro Miyasaka (1925-2017), em sua última entrevista que pode ser acessada no canal You Tube

Quando faleceu aos 92 anos, em 2017, o engenheiro agrônomo Shiro Miyasaka alertava que é preciso perseguir uma agricultura cada vez mais moderna e salutar. Miyasaka, que chegou ao Brasil com 8 anos, foi o primeiro imigrante japonês a doutorar-se em agronomia no País, em 1959. E fez uma revolução. Considerado o “pai da soja no Brasil”, foi ele que iniciou o programa de melhoramento do grão utilizando em suas pesquisas sementes trazidas dos Estados Unidos e do Japão. Em 1957, identificou variedades de soja menos sensíveis a períodos mais longos de luz e às baixas temperaturas. Foram essas descobertas que abriram as portas para que uma geração de pesquisadores adaptasse a leguminosa ao Cerrado. Miyasaka foi diretor do Instituto Agronômico de Campinas e fundador da Associação dos Produtores de Agricultura Natural.

“Meu pai tinha razão, ele acreditava no nelore”

Torres Homem Rodrigues da Cunha (1916-2010), pecuarista

Quando morreu, aos 94 anos, o pecuarista Torres Homem Rodrigues da Cunha, dono da marca VR, em Araçatuba (SP), deixou um legado ao País. Ele foi um dos importadores de nelore da Índia, em 1962, saga que mudou para sempre a pecuária nacional. Nessa importação estava o touro Karvadi, o maior símbolo dessa era. Cerca de 10 milhões de registros na ABCZ tem como base o sangue do animal. Além de Karvadi, vieram pelas mãos de outros zebuzeiros os touros Golias, Taj Mahal, Rastã, Checurupado, Godhavari, Padu e Akamasu. A importação de animais da Índia estava proibida desde 1921. Foi com a base em 1962 que o Brasil saiu de um rebanho improdutivo e atrasado para se tornar o maior criador de gado comercial do mundo, com 212 milhões de animais, dos quais 80% têm sangue zebu.

Fonte: Dinheiro Rural

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