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Dietas ricas em proteína favorecem envelhecimento e aparecimento de doenças

quarta-feira, fevereiro 20, 2019

Reduzir o consumo de proteínas faz bem para a saúde. Imagem meramente ilustrativa via Pixabay

Pesquisadora da UFMG explica detalhes moleculares de estudo internacional sobre o tema


Churrasco, feijoada e queijo minas estão entre as delícias da cozinha brasileira. Mas, se consumidos com frequência e em excesso, são dietas ricas em proteínas e podem fazer mal à sua saúde.

Isso pode ocorrer porque o excesso de proteínas gera um efeito perverso: quanto mais consumimos, mais as nossas células quebram estas moléculas, aumentando a quantidade de aminoácidos dentro do organismo de maneira muito rápida, e essa alta velocidade leva ao aumento de “erros” nesse sistema.

Tais erros contribuem para que as células funcionem mal, favorecendo o envelhecimento precoce e o aparecimento de doenças neurodegenerativas e alguns tipos de câncer.

A conclusão é de um estudo colaborativo internacional que contou com a participação da professora Viviane Alves, chefe do Laboratório de Biologia Celular de Microrganismos e coordenadora do projeto de divulgação cientifica CeTOXY, do Departamento de Microbiologia do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal de Minas Gerais (ICB/UFMG).

Além dela, participaram da pesquisa cientistas da Austrália e da Inglaterra, países em que o consumo de proteínas como carnes, ovos, leite e derivados é bastante alto.

“Há muitos anos, centenas de pesquisadores estudam a relação entre alimentação e saúde. Sabe-se que quanto menor a ingestão de calorias (a chamada restrição calórica), maior a longevidade, ou seja, envelhecemos mais lentamente e de forma saudável. Carboidratos e proteínas são os mais estudados no contexto do envelhecimento e sabemos que a ingestão destes nutrientes sem controle pode alterar nossas células de várias formas. Já havia muitos indícios, na literatura, de que a ingestão excessiva de proteínas diminui o tempo de vida dos seres humanos. Nosso estudo permitiu entender melhor como e porque isso acontece”, conta a professora.

COMO FOI FEITA A PESQUISA?

“Este foi um trabalho conjunto, no qual utilizamos três modelos experimentais diferentes. Aqui no Brasil, eu trabalhei com o verme Caenorhabditis elegans, que vem substituindo modelos animais na pesquisa há décadas”, conta a professora.

Na Austrália, os experimentos foram feitos com células humanas e na Inglaterra, com a drosófila, popularmente conhecida como mosquinha da fruta.

Nos três modelos, no nível celular e molecular, os pesquisadores demonstraram que a ingestão de proteínas em excesso faz com que as células tenham quem metabolizar mais rapidamente estas moléculas, e a rapidez resulta em envelhecimento.

“Normalmente, esses aminoácidos são utilizados pelo organismo para as funções vitais. Mas quanto mais proteína ingerimos, maior a velocidade necessária para as células produzirem os aminoácidos. E quanto mais rápido este processo, maior a chance do organismo gerar proteínas defeituosas, que levam ao mal funcionamento das células e consequente diminuição da sua sobrevida”, explica a pesquisadora.


QUANTIDADE CONSUMIDA VERSUS EXPECTATIVA DE VIDA

Cientistas interessados ​​nas ligações entre nutrição, saúde e expectativa de vida têm agora mais um importante modelo para darem sequência a pesquisas que busquem compreender as relações entre as proteínas que consumimos e o envelhecimento saudável.

Segundo Viviane, para que os estudos sejam conduzidos em seres humanos, ainda pode levar um bom tempo, mas os resultados utilizando os modelos de laboratório já permitem inferir as consequências para a saúde humana.

“Tanto o verme Caenorhabditis elegans quanto a drosófila, apesar de grandes diferenças, quando comparados aos seres humanos, têm vias metabólicas parecidas com as nossas. Os achados nestes modelos também fora observados em células humanas cultivadas. Futuramente, poderemos estudar como esse processo se dá em mamíferos e em seres humanos que consomem muita proteína, como os praticantes de atividades físicas intensas“, comenta a professora.

O estudo é o primeiro a demonstrar uma ligação direta entre o consumo de proteínas e o envelhecimento e traz contribuições para diferentes áreas de pesquisa, como aquelas voltadas para a nutrição, e estudos sobre produtos naturais que podem regular o metabolismo, aumentando nossa longevidade.

REPERCUSSÃO INTERNACIONAL

A pesquisa teve artigo publicado no periódico de alto impacto Current Biology e contou com repercussão midiática internacional.

“É o resultado de um trabalho de cinco anos, com muitas mãos e cabeças envolvidas para chegarmos a um dado inédito sobre a ligação entre o consumo de proteína, o aparecimento de erros metabólicos e o envelhecimento. Vamos manter a colaboração para elucidar outros aspectos. O professor Chris Proud, por exemplo, estuda como o processo de consumo de proteínas, e a utilização dos aminoácidos pelas células resulta em doenças como diabetes e câncer”, detalha Viviane.

Chris Proud é o líder do estudo e atua no Sahmri / Universidade de Adelaide, na Austrália.

Em entrevista ao site The Advertiser / Adelaide Now, ele comparou o efeito identificado ao de excesso de velocidade em um veículo: “quanto mais rápido você for, maior a probabilidade de cometer um erro”.

Consumo excessivo de leites e derivados também pode desencadear o problema identificado pelos pesquisadores. Imagem meramente ilustrativa, via Pixabay

BRASILEIROS E O CONSUMO DE PROTEÍNAS

De acordo com levantamento conduzido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2017, o Brasil está em 6º lugar no ranking de países que mais consomem carne no mundo.

A média de consumo de carne pelos brasileiros é de 78,6kg/ano per capita.

Em primeiro lugar na lista está os Estados Unidos, seguido pela Austrália, Argentina, Uruguai e Israel. As informações são do portal da Forbes.

Mas é importante lembrar que o consumo de proteínas não se dá exclusivamente pela ingestão de carnes, ovos e peixes.

Proteínas também são encontradas em uma variedade de leguminosas, como grão de bico e lentilhas, frutas secas, como nozes, sementes e vegetais.

De acordo com a professora Viviane, não importa a fonte: qualquer excesso de proteínas, de qualquer origem, pode levar a defeitos na célula, resultando em envelhecimento acelerado e doenças associadas à velhice.

“É aquela máxima: tudo em excesso faz mal. O trabalho mostra isso em detalhes moleculares”, conclui.

Fonte: Minas Faz Ciência

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