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Licuri: do sabão caseiro à granola orgânica

quarta-feira, dezembro 19, 2018


Entre as muitas palmeiras onde cantam sabiás e se alimentam araras, maritacas, papagaios e periquitos nessas nossas terras brasileiras, mais uma vem subindo no conceito dos consumidores urbanos: a palmeira sertaneja ou licurizeiro (Syagrus coronata). Com 6 a 12 metros de altura e cachos com mais de mil coquinhos, ela cresce em grandes concentrações na Caatinga. No sertão baiano, em especial, o coquinho licuri há muito é considerado o recurso básico para a sobrevivência da arara-azul-de-lear (Anodorhynchus leari), além de servir para o consumo humano e ser tradicionalmente usado na criação de aves domésticas e na fabricação de sabão caseiro.

Demorou uns bons séculos, mas as qualidades do licuri acabaram por extrapolar a Caatinga e conquistar outras regiões. Primeiro foram os fabricantes de cosméticos artesanais dos grandes centros urbanos do Sul e Sudeste: graças a suas propriedades hidratantes, emolientes e antioxidantes, o óleo de licuri passou a servir de base para xampus, sabonetes e produtos para pele e massagem. Depois, com a coleta selecionada, novas máquinas de beneficiamento e mais cuidado com a prensagem a frio, o óleo de licuri entrou também na cozinha de alguns chefs famosos. E a farinha de licuri virou ingrediente em misturas para bolos, granola orgânica e barrinhas de cereais.

Agora, as cooperativas e as empresas do interior da Bahia trabalham em ritmo acelerado entre os meses de fevereiro e maio, quando ocorre a safra dos palmeirais nativos para dar conta da demanda crescente. “Só aqui em Caldeirão Grande (BA) são mais de 16 milhões de pés nativos de licuri e a produção é de 400 toneladas, mas a demanda é tão grande que nem sempre se consegue comprar matéria prima”, diz Leonardo Ferreira da Silva, um dos sócios da Licuri Brasil, fabricante de óleo cosmético e alimentício e de farinha de licuri.

A empresa tem diversos clientes em São Paulo e está em processo de certificação do óleo de licuri orgânico. “São 500 litros/mês de óleo cosmético e 1.000 de óleo alimentício, além da farinha de licuri, usada nos bolos, na granola e em outros produtos naturais”, acrescenta.

O interesse cresceu após a divulgação de pesquisas realizadas com o licuri, identificando nutrientes importantes em sua composição, como lipídeos (49%), proteínas (11%) e carotenoides (pró-vitamina A). Entre os minerais presentes na polpa, destacam-se cálcio, magnésio, cobre e zinco, enquanto a amêndoa é rica em ferro, manganês e selênio, de acordo com estudo realizado na Universidade Federal da Bahia (UFBA).

O teor de óleo contido na amêndoa também é considerado alto (55% a 61%), equivalente ao coco (Cocus nucifera). E o índice de saponificação é de quase 100%, conforme pesquisa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Vale notar, inclusive, que isso significa usar menos soda cáustica na fabricação de sabão e detergente (os trabalhadores dessa indústria e a natureza agradecem).

Como se o óleo, a polpa e a farinha não bastassem, o licurizeiro também fornece outro recurso para o complemento de renda de muitas famílias sertanejas: a palha boa para tecer. As folhas têm até três metros de comprimento e são bem resistentes e maleáveis. Com elas, cooperativas e grupos fazem bolsas, chapéus e cestas de todo tipo. As Artesãs Filhas do Vento, de Brotas de Macaúbas (BA), por exemplo, vendem sua cestaria em feiras trimestrais organizadas na Bahia ou por encomenda, via redes sociais, para todo o Brasil, conforme explica a artesã Iraci Francisca Camilo.

O licurizeiro é protegida no sertão e a retirada das folhas obedece a regras básicas de manejo, como extrair uma folha por palmeira e respeitar um período de descanso de dois meses após a extração. Junto com sua irmã, Elenita Camilo, e outras artesãs do grupo, Iraci fez um curso de treinamento do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) para aprender o manejo correto.

Aliás, respeitar o direito da fauna nativa se alimentar de licuris e deixar parte dos coquinhos para eles é igualmente importante. Embora tenha uma safra anual, a palmeira sertaneja produz durante quase todo o ano e, em algumas épocas, seus coquinhos são tudo o que esses animais têm para comer. Sem mencionar que um pouco das sementes deve ficar no chão, para garantir a renovação natural dos palmeirais.

Com a coleta racional e o manejo adequado, não vai faltar licuri para todo esse público interessado em suas qualidades.

Fonte: Conexão Planeta

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