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Florestas cultivadas

quinta-feira, outubro 13, 2016

A silvicultura, que busca restaurar, preservar e melhorar as coberturas florestais, é uma resposta viável ao consumo de madeira necessário para a produção de diversos itens comuns na vida moderna
Plantação de árvores no interior paulista: maneira de obter madeira sem desmatar mais / Foto: iStockphoto
Um dos primeiros materiais a ser trabalhados pelo ser humano, a madeira possui um papel importante na evolução da nossa raça. Até hoje ela tem múltiplos usos, em áreas como construção civil, fabricação de móveis, barcos, papel, compensados, lápis e compostos químicos orgânicos. Neste momento, vive-se um impasse: usar a madeira nativa de florestas equivale a devastá-las e, com isso, provocar a perda de habitat de diversas espécies animais e vegetais. Ao mesmo tempo, a indústria precisa da madeira como matéria-prima para continuar a produzir. Cultivar esse insumo foi a solução para preservar as matas naturais. Assim surgiu a silvicultura, arte/ciência que estuda métodos naturais e artificiais destinados a possibilitar a restauração e o melhoramento dos povoamentos florestais.

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A silvicultura é sustentável por definição, pois seu objetivo é criar florestas com árvores que possam suprir as necessidades da economia, mas que também ajudem a preservar e manter as espécies originais. Amantino de Freitas, presidente da Sociedade Brasileira de Silvicultura (SBS) – país onde a técnica se firmou no século passado –, afirma que, quando executada da forma correta, a silvicultura é altamente sustentável. Além de reduzirem o desmatamento, as florestas plantadas ajudam a diminuir a pressão sobre as matas nativas. Críticas, porém, não faltam a essa modalidade de cultivo. A floresta nativa abriga grande diversidade de espécies de plantas e animais, o que não ocorre no caso das plantações de pinus e eucaliptos (monoculturas). Para matar as gramíneas e outras plantas há uso intenso de agrotóxicos. Depois de um tempo, a plantação se transforma em um deserto – daí a denominação popular de “deserto verde”.

Devido à extensão e ao adensamento das árvores, que crescem em rápida velocidade, as fontes de água e o solo correm o risco de se deteriorar. O tamanho das plantações é outro fator importante. Estudos mostram que não há impactos significativos desde que as plantações florestais ocupem até 20% da área da microbacia hidrográfica em que elas se localizam. O problema é que as plantações de pinus e eucalipto ocupam áreas imensas e, não raro, esse limite é desrespeitado, causando alterações. No Sul do país, por exemplo, as ONGs criticam o avanço da silvicultura no pampa gaúcho. Segundo os ambientalistas, o pampa nunca teve floresta e, por isso, os danos socioambientais da silvicultura naquela região são incontáveis.

Vantagens ambientais

Por sua vez, o setor empresarial defende a atividade de florestas plantadas como ambientalmente correta e enumera pontos positivos, como a alta taxa de sequestro de gás carbônico (um dos vilões do aquecimento global) e a restauração de áreas degradadas. Os empresários também consideram um mito as acusações de que o eucalipto consome muita água e contribui para a degradação das fontes hídricas.

Amantino de Freitas rebate as críticas afirmando que o emprego de fertilizantes e agrotóxicos é bem menos intenso na silvicultura do que nas culturas agrícolas tradicionais. O uso de organismos geneticamente modificados (transgênicos) também não é permitido pelos esquemas de certificação. Atualmente, dos 7,74 milhões de hectares de florestas plantadas no Brasil, 4,9 milhões de hectares estão certificados e seguem os padrões de qualidade exigidos internacionalmente.

Segundo o presidente da SBS, as práticas adequadas de silvicultura não prejudicam o meio ambiente, pois as técnicas modernas de plantio de florestas comerciais recomendam o manejo florestal em nível de paisagem, de modo a intercalar áreas de florestas plantadas com áreas de florestas nativas, formando “corredores biológicos” que favorecem a proteção da flora e da fauna.

“Grandes áreas ocupadas por pecuária extensiva de baixa produtividade poderiam ser beneficiadas com o reflorestamento, desde que executado com critério”, avalia Freitas. “O plantio de árvores em áreas remotas e improdutivas gerará emprego e renda para a população local. As indústrias de base florestal que se instalam nessas áreas para utilizar a matéria-prima gerada pela floresta contribuem para o desenvolvimento econômico e social, elevando o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios envolvidos. No Paraná, por exemplo, o município com o maior IDH é Telêmaco Borba, reconhecido polo florestal-madeireiro criado em torno das Indústrias Klabin S.A.”

Tipos de silvicultura

São duas as modalidades de silvicultura: a clássica e moderna. A primeira, relativa às florestas naturais, recorre a forças produtivas oriundas dos sítios ecológicos e busca preservar a estabilidade natural do ecossistema. A segunda trabalha com as florestas plantadas, mantidas artificialmente e mais autônomas em relação ao sítio natural.

Os dois tipos têm como objetivo a produção de madeira e envolvem o trabalho de vários profissionais em suas diferentes etapas. No caso da silvicultura moderna, há uma atribuição adicional: além de madeira, ela deve produzir serviços e bens.

O trabalho dos silvicultores exige precisão para intervir na floresta no momento certo, sem prejudicar o equilíbrio ecológico, e atenção a detalhes como estudo do clima local, determinação da espécie e escolha do material genético, produção de mudas, preparo do solo, controle de pragas e colheita planejada.

Produção sustentável
Algumas indústrias plantam árvores para suprir suas necessidades de matéria-prima, como a Eucatex, fabricante de chapas e painéis. Segundo Hernon José Ferreira, diretor florestal da empresa, o cultivo está distribuído em 21 municípios no interior paulista. São cerca de 28 mil hectares de cultivo numa área de 46 mil hectares. Essas áreas, plantadas com eucalipto, abastecem as unidades do grupo com 1,4 milhão de m3 de madeira anualmente.

Segundo Ferreira, a Eucatex procura garantir a produção sustentável de madeira prezando pelo uso racional dos recursos florestais e pela conservação dos ecossistemas naturais. A empresa possui certificações FSC (Forest Stewardship Council) e ISO 14001 que garantem os cuidados ambientais e preocupações sociais. Ela faz monitoramentos mensais para minimizar impactos relativos ao meio ambiente e às comunidades vizinhas.

“O setor florestal brasileiro é muito competitivo e trabalhamos estritamente dentro das leis ambientais”, diz Ferreira. “Nossos pesquisadores desenvolveram clones de eucaliptos resistentes às pragas e doenças e temos uma das maiores produtividades do mundo, colhendo florestas plantadas de eucaliptos entre 6 e 7 anos com incremento médio anual de 53m2/ha/ano. Quando comparados a outros países, temos uma grande vantagem competitiva.”

Outra fabricante nacional de painéis de madeira reconstituída é a Duratex. José Ricardo Paraíso Ferraz, seu diretor florestal, diz que a empresa maneja cerca de 271 mil hectares, dos quais 206 mil hectares são de plantio de eucalipto e pinus, distribuídos em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul. Em 2015, a Duratex usou cerca de 3,6 milhões de toneladas de madeira para fabricar painéis.

O reflorestamento garante às fábricas madeira não oriunda de desmatamento de áreas nativas. Além disso, as áreas florestais da Duratex têm o certificado FSC, o que atesta que as florestas são manejadas de forma ambientalmente adequada, socialmente benéfica e economicamente viável.

Segundo Ferraz, as técnicas de manejo usadas hoje garantem uma silvicultura feita com o menor impacto ambiental possível. A Duratex utiliza o sistema de cultivo mínimo nas suas plantações, ou seja, galhos, folhas e ponteiros da floresta colhida são deixados na área de plantio, ajudando a conservar o solo e os recursos hídricos. Nas áreas de mata nativa mantidas já foram identificadas mais de 800 espécies de fauna e mais de 1.000 espécies de flora – uma evidência de que essas florestas são manejadas em harmonia com a natureza.

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